A HIPOCRISIA DOS POLÍTICOS

Ao abordar este assunto, faz-se mister distinguir entre política e políticos. Uma coisa é a política que, no seu melhor sentido, é a ciência que dirige as relações entre cidadão e estado. É a arte de governar. Outra, quando passa da teoria para a prática e começa ser manipulada pelos homens. Transfigura-se, então, em astúcia ou politicagem a serviço de interesses pessoais. É neste sentido que, comumente, se fala e se entende por política. É sinônimo de malandragem recheada de hipocrisia.

Na última campanha política para a eleição de prefeito de São Paulo, um singular episódio marcou ponto nesta farsa entre políticos. O falecido governador de São Paulo, Mário Covas, adiou sua internação no hospital para não se privar do prazer de votar na candidata do P.T., Marta Suplicy, ele que era tucano do bico amarelo. O mesmo fez o presidente Fernando Henrique que voltou correndo da Europa para ungir com sua presença presidencial a candidatura da candidata sexóloga. Entre sorrisos e beijos fecundou-se a afetada união entre tucanos e sapos. Maravilhoso... O chamego, contudo, durou pouco, só o necessário para que Marta agarrasse a picanha da prefeitura. O beijo da véspera virou tapa. Com efeito, logo depois de eleita, Marta, participando de programa na Rede Record, afirmou que não tirava o chapéu nem para Covas nem para Fernando Henrique porque ambos não cumpriam a palavra empenhada. Nesta mesma campanha, Paulo Maluf e Covas não trocaram beijos mas farpas bastante para serem identificados como inimigos irreconciliáveis. Na oportunidade, Maluf apanhou mais do que bateu e ainda ocupou o ponto mais alto do pódio no campeonato pela desonestidade.

Vem a morte com sua misteriosa magia de realizar milagres e transforma o truculento Covas num santo. O cordão dos bajuladores desfilou contrito diante dos microfones para contabilizar as virtudes do falecido. Até a Marta veio para reavivar o calor de seu beijo eleitoreiro. Os sem terra agradeceram o apoio recebido nas turras pela invasão de terras. Paulo Maluf nem mais se lembrou de que fora taxado de ladrão e lá se foi, por mais de uma vez, todo contrito, derramar uma lágrima furtiva sobre o esquife do piedoso Covas. A T.V.Record, pela palavra acalorada do repórter Luiz Datena, sempre condenou Covas por não resolver, apesar das promessas, os problemas da FEBEM, dos presídios, do trânsito, dos sem terra e de tantos outros, agora o agracia com o epíteto de GUERREIRO. Será porque algumas vezes ele entrou em atrito com manifestantes de rua, mais apanhando do que batendo?

Ora, meus amigos, perdoar é humano, até mesmo divino, mas apagar o erro que deu azo ao perdão é hipocrisia. Jesus Cristo perdoou Judas, mas lhe advertiu que, para ele, seria melhor não ter nascido. O mérito do perdão é de quem perdoa e não de quem é perdoado. O brasileiro, mais propriamente a Imprensa, não tem senso do ridículo quando pretende transformar nulidades em heróis. Qualquer violeiro, depois de morto, provoca mais comoção do que o sofrimento de milhões que morrem de miséria e de fome. O capítulo vinte e três do Evangelho de São Mateus, traça, com muita propriedade, o perfil do hipócrita. O político brasileiro, com muito poucas exceções, encarna a figura do fariseu nos seus gestos, atitudes e palavras. Pregam uma coisa e fazem outra muito diferente. O pior é que canonizam os próprios inimigos depois de mortos por puro interesse e para manter incólume a figura do político. Fernando Henrique é ateu e materialista confesso e assumido. Não duvido nada que, depois de morto, ele vá competir com São Francisco de Assis no podium dos santos. O mais curioso é que a maioria de nossos políticos vive como ateus e materialistas, mas, na hora da morte, reivindicam os sacramentos ministrados por purpurados e missas celebradas igualmente por purpurados, ao aroma de incensos e libações. 

Nada tenho a ver com as convicções religiosas e a maneira de viver de cada um. Esta é uma questão pessoal que só a Deus compete julgar. Acho, contudo, muita cara de pau viver como fariseu e pretender se apresentar a Deus como um humilde publicano. Parceiro do demônio em vida, mas fiel servidor de Deus na morte. Julgar pertence a Deus, mas, presenciar e sofrer as conseqüências das malandragens dos políticos é coisa nossa, de nós homens. Aqui se envolve uma questão de justiça, daquela justiça que não falha e julgará cada um à base de suas ações e comportamento durante a vida. Não é possível nem condizente com a santidade de Deus que, perante ELE um Hitler vá receber a mesma recompensa de uma Madre Tereza de Calcutá. Em não havendo nenhuma diferença na hora do prêmio, seria ridículo tanto esforço na prática das virtudes e do bem. São Paulo na 1 Cor.Cap.24, diz textualmente: “Vocês não sabem que no estádio todos os atletas correm, mas um só ganha o prêmio? Os atletas se abstêm de tudo para ganhar uma coroa perecível; e nós, para ganharmos uma imperecível. Nossos políticos, certamente vão continuar fazendo da política a arte de enganar os homens, não porem a Deus.

José Cândido de Castro

MARÇO/2001

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Prof. José Cândido de  Castro
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