O BRASIL SOFRE COM A FALTA DE LIDERANÇAS

O século vinte foi marcado pela presença de fortes lideranças, quase sempre personificadas, encarnadas em indivíduos que se projetaram por sua postura e impuseram uma idéia. A idéia, por si só, pouco ou nada significa se não for vivida e reduzida à prática por alguém que nela acredita. Infelizmente as lideranças do século passado se deixaram empolgar por idéias e filosofias malsãs, mas, que ocuparam lugar e sacudiram o mundo negativamente. O comunismo, por exemplo, pode ser mais bem explicado pelo aparecimento de um Lenine, na Rússia, do que pelo materialismo dialético do alemão Carlos Marx. O nazismo é muito mais inteligível através de Hitler do que por meio de uma lei zoológica a respeito da supremacia da raça alemã.

Enquanto as pessoas obedecerem simplesmente às leis ou sentirem que estão exclusivamente debaixo do poder delas tenderão a permanecer passivas. A lei é a ordenação da razão para o bem comum. O objetivo é o bem comum que se obtém quando a lei é posta em prática. Nada pode tirar tanto as pessoas dessa passividade quanto uma figura dotada de grandes poderes de liderança, ou uma minoria criadora que resista à corrente e ao impulso. A transformação do meio social só se tem realizado, historicamente, através do triunfante desejo criador de um grande gênio. Tanto mais o indivíduo criador se eleva acima do nível médio de seus contemporâneos, maiores possibilidades tem ele de precipitar um conflito social. Poderão atirar-lhe pedras em maior quantidade do que a quantidade de flores que uma pessoa medíocre possa receber, mas é admissível que, embora tais excessos, possa ocorrer uma transformação na sociedade. Esses indivíduos criadores são geralmente poucos, comparados às massas sobre as quais agem. Do ponto de vista da proporção, podem ser tão minúsculos como o sal em relação à terra, uma cidade à montanha ou a levedura à massa. Mas como influência, não é proporcional ao seu número, mas ao poder invisível de suas idéias.

O homem comum é, por si só, incapaz de grande avanço social ou cultural sem a liderança do homem fora do comum. Os males do mundo de hoje não são devidos à falta de ovelhas, mas à ausência de pastor. Os pastores se vulgarizaram, se massificaram. Acabou seu poder de fermentação. O desenvolvimento das massas ou da grande maioria não criadora é principio de queda de qualquer nação. E por massa deve entender-se o grupo que não pertence a qualquer classe social ou econômica. Compõe-se de todos aqueles que não mais participam da vida criadora e das idéias da comunidade. Constitui-se de todos os cínicos, desesperançados, descontentes e amedrontados. Esses são os homens e as mulheres que não podem ou não querem mais tomar parte na tarefa de levar a civilização para frente. Estão sempre presentes. Seu aumento é o primeiro sinal de que o mundo está perdendo o vigor. Significa que, por causa de nossa derrota parcial em mantermos promessas e tradições, o bárbaro primitivo voltou ao mundo, pronto para destruir, como sempre, e incapaz de criar.

Se o homem comum, a massa, vai ser salvo de sua falta de atividade criadora, não será por burocratas ou agências sociais, por leis imanentes, mas somente através do homem invulgar. Este homem é o líder, o pastor que reúne as ovelhas, antes espalhadas, dispersas, para formar o aprisco.

No Brasil criamos uma nova raça, de físico saudável, de corpos, às vezes, bonitos, mas de cabeça oca. São pessoas que aceitaram a vida como uma alternância entre rotina vazia e sensação de insignificância. Por sua falta de experiência, negam que a vida tenha quaisquer outros significados, valores ou possibilidades. O melhor que fazem estes bárbaros passivos é viver em inocente nível animal. Procuram tornar-se morenos nas grandes praias públicas, ou à luz de lâmpadas; dançam, rodopiam, agitam-se em amenas orgias de vaga sensualidade ou empenham-se em felicidades mais íntimas sem sentimento ou uma intenção fundamental que não possa ser igualmente compartilhada por um gato ao copular. Vestem-se cuidadosamente, dentro dos limites da uniformidade estabelecidos pela moda. A máquina encrespa-lhes os cabelos, e o que é tomado por pensamento, sentimento, é também passivamente conseguido pelo uso da máquina. Comem, bebem, casam-se, tem filhos e morrem num estado que, na melhor das hipóteses, é uma anestesia hilariante, e, na pior delas, é ansiedade, medo e inveja por falta dos meios necessários para atingir o mínimo de sensação que esteja na moda. Sem este mínimo, sua rotina seria insuportável, suas horas de lazer ainda piores. Vendedores, escriturários, milionários e mecânicos compartilham dos mesmos princípios fundamentais, dos mesmos hábitos, tem geral desprezo da vida que não seja a nível da satisfação e da vitalidade animais. Se os privarmos disso, acharão que não vale a pena viver. São semimortos em seu trabalho e semivivos fora dele. Este é o seu destino. Todos querem imitar o luxo e os costumes dos grandes centros, com seus desfiles de modas, clubes noturnos, hotéis de estrada e inutilidades organizadas e contribuem para produzirem sua cota de pessoas igualmente desprovidas de padrões e objetivos humanos.

As lideranças no Brasil vicejam na faixa das nulidades. Cada um quer ser e aparecer mais vulgar do que o outro. Assim, surgem as Carla Perez, as Feiticeiras, Os Gugus, os Faustões, os Tigrões, os Autores de Novelas e muitos outros todos eles com diplomas de curso superior expedidos pela Universidade da Vulgaridade onde a palavra de ordem é: baixar o nível. São Paulo, apóstolo, escrevendo ao seu discípulo Timóteo (2.Tim 4,3) profetizou tudo o que está acontecendo. Diz ele: “Pois vai chegar o tempo em que não suportarão mais a sã doutrina, pelo contrário, com o prurido de ouvir novidades, escolherão para si mestres a seu bel-prazer. Desviarão os ouvidos da verdade e os orientarão para as fábulas”.

Fábula é esta vida vivida pelas massas, por este rebanho sem pastor. Procura-se, desesperadamente, alguém para ser Presidente da República Federativa do Brasil. Se você souber onde ele se encontra, avise-me para que possa homenageá-lo com meu voto.

José Cândido de Castro

MAIO/2001

Direitos de Reprodução Reservados
Esta publicação não poderá ser reproduzida ou transmitida
por qualquer modo ou meio, no todo ou em parte,
sem autorização prévia e escrita do autor.

 
Prof. José Cândido de  Castro
Filósofo e Humanista
Fone: 0xx (34) 3236-8349
Uberlândia - MG