VIVER É CONVIVER COM O MISTÉRIO
Na minha atividade intelectual tenho dedicado um considerável número de horas ao afã de me aproximar, o mais possível, da fronteira que separa o humanamente conhecível, de que, pura e simplesmente, não se acha ao alcance de nossa capacidade cognoscitiva, própria de nossa condição de ser criado.
O que tenho tentado é nada mais do que prestar minhas homenagens à soberania do conhecimento ilimitado exclusivo do Ser Supremo.
Mistério é tudo aquilo que transcende toda a capacidade da inteligência humana de conhecer. Esta incapacidade pode ser absoluta ou relativa.
É absoluta quando a essência do ser pesquisado é simplesmente inatingível e está acima de qualquer capacidade cognoscitiva criada. O exemplo clássico, se bem que não o único, é o mistério da Santíssima Trindade. Ele, com um sem numero de outros, formam o imenso mar das incógnitas sobre o qual flutua o insignificante barquinho de papel de nossa fragilidade sempre correndo o risco de naufragar quando esbarra com algum iceberg nocauteador de titanics.
É relativa quando a essência pesquisada, em si mesma, é atingível pela razão, mas, na prática, permanece oculta sob algum outro aspecto, por exemplo, da quantidade ou qualidade. É o caso, via de exemplo, dos grãos de areia existentes nas praias dos oceanos. Sua essência é conhecível, mas seu número ninguém, até o presente, conseguiu determinar. O mesmo se dá com o número das estrelas do firmamento, das folhas que cobrem as árvores de nossas florestas, das células que integram a malha do organismo humano, etc.
O mistério, ao contrário do que muitos afirmam ou imaginam não significa ausência de ser ou negação da existência. Antes, muito ao contrário, representa um universo de tamanha grandeza que não encontra espaço dentro dos limites de nossa capacidade. Na biografia de Santo Agostinho, antes de sua conversão, encontramos uma página verdadeiramente digna de ser levada em consideração. Narra seu biógrafo que, certa tarde, Agostinho caminhava por uma praia, envolto em pensamentos relativos ao mistério da Santíssima Trindade quando deparou com uma criança que havia perfurado na areia um pequeno buraco e com suas pequenas mãos transpunha para o mesmo a água do mar. Agostinho perguntou-lhe o que pretendia com aquele gesto, ao que a criança prontamente respondeu: Pretendo colocar neste buraco toda a água deste oceano. Sorrindo, Agostinho retrucou: “Não vês, porém, que isto é impossível”. “Com certeza, concordou a criança, assim como é impossível que o mistério da Santíssima Trindade caiba em sua cabeça”. Tendo dito isto, desapareceu. Era um anjo que acabava de dar um empurrão na incredulidade de Agostinho que acabava de se converter em fiel santo da Igreja. Verdadeira ou não, esta história é a expressão de uma grande verdade.
A única atitude coerente perante o mistério é a da humildade que consiste na virtude que conduz o individuo à consciência de suas limitações. Todo o sábio é humilde porque sabe que só sabe pouco do muito que deveria saber. Todo o homem verdadeiramente grande sabe que sua grandeza só se realiza quando reconhece a grandeza do Criador que o fez à sua imagem e semelhança. Humildade não é fingimento, mas consciência clara do valor relativo e passageiro de tudo o que nos cerca.
Confesso que dentre os mistérios que me cercam o que mais me intriga é aquele com quem mais convivo, ou seja, o conhecimento. Até hoje, e seguramente, nunca, conseguirei entender como todo este universo de coisas materiais captado por meus sentidos entre no limitadíssimo espaço material do meu cérebro, em forma de conhecimento, sem ocupar lugar. Como pode perceber meu leitor, o mistério nos é tão familiar que se confunde com nossa própria existência. Viver é conviver com o mistério.
Emmanuel Kant, defensor do mais exasperado racionalismo afirma que aquilo que não é conhecido pela razão não existe. Logo, para ele o mistério não existe. Neste sentido, nada há de mais irracional do que o racionalismo. Negar a existência de um ser só pelo fato de que eu não o conheço é proclamar o egocentrismo como expressão última da existência. A mim, me resta responder ao mistério com toda a profundidade de meu ser como afirmação de sua existência e não como compreensão de sua essência. Ao Senhor da Sapiência confio a minha liberdade, minha memória, meu entendimento, minha vontade e tudo o que possuo na certeza de que tudo, neste escrínio, estará à prova do caruncho, da traça da ignorância e do orgulho racionalista.
José Cândido de Castro
MAIO DE 2007
Direitos de Reprodução Reservados
Esta publicação não poderá ser reproduzida ou transmitida
por qualquer modo ou meio, no todo ou em parte,
sem autorização prévia e escrita do autor.