NEM SÓ DE PÃO VIVE O HOMEM

Tão lapidar quanto sábia, esta sentença só poderia fluir dos lábios da Sabedoria Imanente, daquela Sabedoria, lei das leis, que tudo rege e governa sem a mínima possibilidade de erro.

Em dois flashs, nas páginas sagradas, principalmente, brilha a luz desta Sabedoria. O primeiro é apanhado pelo livro do Deuteronômio (8, 3) onde lembra ao povo que, durante quarenta anos, Deus saciou sua fome de pão com o maná que fez chover do céu sobre a terra. Tal gesto contudo, não foi bastante para que aquele povo entendesse que, somente à base de pão, não conseguiria realizar seu destino, a não ser que o vivificasse com a palavra de Deus pela observância dos mandamentos.

O segundo é destacado por São Mateus (4, 4) quando a fome de pão, no episódio das tentações, foi utilizada, pelo tentador, como motivação para desviar o Senhor do céu e da terra de sua missão de Salvador do mundo com um simples gesto de transformar pedras em pães. A resposta, contudo, foi redundante e sem margem para réplica: “Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.”

Esta sentença nos mergulha fundo no mistério em que se envolve a espécie humana quando fecha os olhos para a realidade que a cerca e os abre para a ilusão que se desmancha com a passagem de cada féretro a caminho dos Campos Santos transportando a matéria das obras do pão que se converterá em alimento de vermes. Realidade das realidades, lição das lições que, misteriosamente, nunca será entendida pela insensatez humana que, até o último dos cadáveres, continuará prestando suas homenagens e fazendo suas libações `a deusa matéria.

Enquanto isto, as obras do espírito sobreviverão como base da sentença que será ditada pela infalível palavra que brotará da Divina Sabedoria no dia do acerto final. Quem tiver cumprido sua palavra e não tiver vivido só de pão, viverá para sempre.

Esta sentença, como dizíamos antes, nos leva a meditar e a refletir sobre o mistério em que se debate a espécie humana, que, no velho estilo da borboleta, irracionalmente, se arrebenta contra a vidraça, a poucos milímetros da liberdade sem, contudo, atinar que, por ali, por mais curto que se lhe antolhe o caminho, jamais realizará seu sonho porque, entre ela a liberdade que persegue, se antepõe um obstáculo, posiciona-se a intransponível barreira da matéria, ainda que camuflada de transparência e de luminosidade.

Como resultado deste engodo, apura-se a desilusão que, à luz dos conceitos, significa a ruptura do equilíbrio metafísico da essência humana e a conseqüente morte daquilo que a obscura mente de algumas, assim ditos filósofos, pretendem qualificar de “única realidade existente” ou seja, a matéria.

Lamentavelmente esta é a real conjuntura da humanidade: buscar na matéria a solução para o enigma de seu destino.

O filósofo norte americano, William James, nos idos de 1842 a 1910, tentou reunir numa só expressão o culto à matéria criando a doutrina do Pragmatismo, doutrina esta que admite por critério de verdade o valor prático e imediato de tudo o que existe, negando qualquer outra realidade além da matéria.

Foram seus contemporâneos e adeptos de suas doutrinas Friedrich Engells e Karl Marx, para o qual, os fatos econômicos fundamentalmente materiais, são a base e a causa determinante de todos os fenômenos históricos e sociais. Assim, o modo de produção da vida material determina o conjunto de todos os processos da vida social, política e espiritual. O comunismo ateu é a versão prática destas filosofias que, apesar de rejeitado pela sociedade e implodido por sua natureza intrinsecamente má deixou como rescaldo a tendência materialista que domina hoje a atividade humana. São expressões deste materialismo, em primeiro plano, a obsessão pelo dinheiro que tudo compra, inclusive as consciências e o que há de mais sagrado para o cidadão, seu voto. Todos correm atrás dele e brigam par arranca-lo das mãos, principalmente, dos que menos o possuem. Toda a atividade econômica e política se converteu numa poderosa máquina de arrecadação. A indústria e comércio, em seus avanços, visam antes de tudo, os lucros mais vantajosos possível. Os bancos funcionam como verdadeiras guilhotinas nos minguados rendimentos da poupança popular. Pagam ao depositante a ridícula taxa de 0,70% para, em seguida, emprestar a ele, o próprio dinheiro com taxa até nove por cento. A propaganda, a grande criadora de necessidades, asfixia todos os meios de comunicação. Ninguém mais se lembra de que é preciso dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.

Além do dinheiro, o culto ao prazer, mais conhecido por hedonismo ou filosofia de vida que exalta o prazer como suprema norma da moralidade. Este hedonismo acaba sempre por ser uma sórdida racionalização do egoísmo e da devassidão, a justificativa intelectual de todas as ruínas morais que redundam na mais crassa expressão do materialismo. É responsável pela corrupção, das instituições mais sagradas, como o matrimônio e a família. Faz proliferar os irresponsáveis e efeminados, o que marca sempre o início da desintegração das grandes culturas e das grandes nações e impérios. Os que cultivam o hedonismo teórico e prático, os que o difundem através da pornografia barata de uma subliteratura, estão irremediavelmente marcados de anacronismo e perdidos para a História que pertence aos fortes. Mas não é só. O consumismo como ânsia de possuir e usufruir de todos os bens da vida material, polariza todas as atenções e ações da atividade do cidadão. Em recente noticiário ouvi a afirmação de uma mulher que se ufanava de haver gasto, de uma só vez, oito mil reias na compra de creme para besuntar as pelancas em erosão, num esforço desesperado para salvar a matéria.

Porém, ainda não é tudo. O pior é que a própria religião é utilizada como prática comercial, com o objetivo sórdido de arrecadar dinheiro para sustentar a luxúria dos falsos profetas tão duramente vergastados pelas Sagradas Escrituras. Alguém já me segredou aos ouvidos que os dois mais rendosos negócios da atualidade são os bancos e a explosão de igrejas. Recentemente, num de seus programas, mais precisamente, no Family Feud, Sílvio Santos formulou às duas famílias participantes a seguinte pergunta: “Se hoje fosse o último dia do mundo o que você faria?”. Ouvimos as mais pitorescas respostas, num total de dez. Todas elas revelaram sua preocupação com as coisas materiais. Desde a prática do sexo até à satisfação da gula, todas afirmaram sua solicitude em aproveitar, até o último instante, dos prazeres terrenos. Ninguém disse que, em tais circunstâncias, procuraria uma igreja ou se recolheria em oração procurando armazenar energias que lhe garantissem os imprevistos de última hora na travessia para a outra vida. Todas afirmaram que, naquele momento, queriam estar de barriga cheia, em dia com os prazeres do sexo e segurando firme uma sacola recheada de dólares. Todas as respostas serviram para nos colocar diante do retrato, o mais realista possível, da moderna sociedade, discípula aplicada de William James e Karl Marx, verdadeiros ímpios que conclamam o povo a que comamos e bebamos porque amanhã morreremos. Nada mais falta para que o culto à deusa matéria seja abrangente, completo e luxuriante como nos bacanais do paganismo.

Esta nossa afirmativa não é força de expressão nem figura retórica mas realidade constatada e aceita pela própria ciência que sempre se ufanou de seu laicismo em suas elucubrações. Além do mais, a natureza continua enviando seus avisos. Pelos choques, e trombadas de seus elementos ela reage contra a violação de suas leis.

Fica assim comprovada a ruptura do equilíbrio da participação da matéria e do espírito na formação do consórcio humano, com prestigio tão somente da matéria como se ela representasse sozinha a realidade de nossa existência. Está decretada e posta em prática a inversão dos valores. “Procurai primeiro o Reino de Deus porque o resto virá por acréscimo (MT. 6. 33). Nossa sociedade, contudo, procura afoitamente, o resto, relegando o Reino de Deus às calendas gregas. É característica do ébrio a distorção da realidade. Ele faz curvas as linhas retas. O homem da atualidade converte-se em ébrio perfeito quando, encharcado de matéria, entre um cambaleio e outro, sai por ai afirmando que Deus é conversa de vigário. Boa mesmo é a branquinha da matéria que rompe com as travas da moral e deixa a gente gozar da vida sem aporrinhações, pelo menos até ao momento em que ecoe em seus ouvidos a voz da realidade, o “Redde rationem villicacionis tuae” (Lc. 16, 2), preste contas de sua administração, ou então, para usarmos do linguajar mais familiar da matéria, numa destas manhãs frias, por trás das grades, ouvir o delegado, em brados lhe dizer que agora basta de orgias e é hora de trocar a branquinha pelo fel da masmorra.

José Cândido de Castro

DEZEMBRO 2005


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Prof. José Cândido de  Castro
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